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O Fitinho se foi...

O Fitinho foi embora. Vai deixar saudade. A primeira dona foi minha tia bisavó Gilda. Solteira, senhora da própria vida e do próprio dinheiro, comprou em 1980 o queridinho das revistas. Um fiat 147 branco. Zero quilômetro. A bordo dele, ela veio de Belo Horizonte para Três Pontas em vários aniversários meus, acompanhada da sua irmã Ofélia e dos meus avós. Até começar a ter dificuldade para enxergar. Resistiu em vender o automóvel. Guardou na garagem por um tempo, ligando toda manhã para aquecer o motor. Não queria passar para qualquer um. Foi então que minha mãe comprou, depois de uma oferta imperdível. Era um bom preço e era um bom carro. Só podia ser, afinal, era da tia Gilda. E, assim, ele veio parar na família. Tornou-se o braço direito da minha mãe. Inseparáveis. Quem nunca cruzou pelas ruas ou estradas de Três Pontas e vizinhança com aquela dona no Fitinho branco?


Como disse tia Betina, “o Fitinho foi valente que só. Cumpriu sua missão e também a missão de muitos outros, desde vans a caminhões... foi, literalmente, pau para toda obra”. Eu aprendi a dirigir no Fitinho, aos onze anos. Minha mãe levava a mim e meus amigos para os shows no Fitinho, abarrotando o carro, numa época em que não se falava em cinto de segurança nem limite de passageiros. Chegamos a ir em dez pessoas para um show do Lulu Santos, fora a motorista dona Cíntia. O Fitinho carregou de tudo. Não cabia em carro nenhum? Não dava o ângulo para o baú do caminhão? Ia no Fitinho. Até a Maria-Fumaça do carnaval foi transportada pelo bravo guerreiro branco de rodas pretas.


Quando a Ark2, banda do Felipe meu marido, saía para tocar nas festas, chopadas, bares e exposições da região, lá ia o Fitinho. Carregando as guitarras, violões, baixo, bateria, caixas de som e, sim, os músicos. Muita estrada ao som de rock and roll. Guerreiro do asfalto. Guerreiro da terra. Nas idas e vindas para os bailes de debutante em Carmo da Cachoeira, lá ia ele pela estrada de terra, entupido de crianças, parentes, equipamentos fotográficos, patos, pintinhos, comidas e causos. Enquanto ficávamos na fazenda da tia Neta, minha mãe e seu companheiro veloz levavam o estúdio de retrato para o Clube Tabajara na cidade, firme e forte, para registrar o debute. No meio de toda aquela chiqueza, lá estava ele. Sereno, perene, indiferente a essa coisa de moda. Velho? Não. Raiz. Meus primos, quando começaram a ficar pré-adolescentes, abaixavam-se para não serem vistos no Fitinho quando passávamos pela praça da Igreja. Vergonha que logo passou e que nós, aqui em casa, nunca tivemos. O Fitinho era motivo de orgulho. As crianças pediam para andar nele. O eterno amigo e companheiro, sempre pronto para o que precisar, para quem precisar.


Na tarde do Natal passado, minha mãe saiu da casa da minha vó para buscar os canudinhos de doce de leite que, aliás, eram minha obrigação. A moça precisava sair. Lá se foram dona Cíntia e o Fitinho, com força, pressa e presteza para mais uma missão. Mas havia outro carro no cruzamento. O barulho foi grande. O estrondo. O estrago. Peças de metal e vidro para todo lado. Ninguém se machucou. Até na hora derradeira ele foi valente. O esqueleto forte de aço protegeu minha mãe. Agora, passados seis meses, ele se foi. Aperta o coração. A despedida nunca é fácil. Então, me dou conta de que o que fazia do Fitinho tão especial não era o carro em si, mas todos os momentos que ele proporcionou, as incontáveis aventuras que aquela caixinha quadrada e corajosa ajudou a contar. Como todo objeto querido, o Fitinho era a representação de muitas recordações especiais, a personificação de toda uma história. E isso não é algo que se vai, mãe. O Fitinho se foi, mas a história fica. E nada vale mais. Tudo se vai um dia. Todos nós nos vamos. Mas a história, bom, essa fica e faz do mundo um lugar que vale à pena.


(Crônica publicada no Correio Trespontano)

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