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  • sitemarolo

Quando é uma palavra que nunca chega

Com a pandemia, retomei a escrita. Foi um feliz reencontro. Voltei a escrever crônicas, escrevi um livro de memórias para dar de presente para a família, um livro de economia criativa e, finalmente, o tão sonhado romance. Eu sempre quis escrever um romance, mas ficava aguardando aquele momento ideal, no lugar ideal que, bom, nunca chegaria. Mesmo com as crianças em casa, o trabalho online, a luta, o isolamento, a falta da família e das pessoas queridas, guardei um tempinho na pandemia e escrevi. Escrevi do jeito que deu, do jeito possível.


Sei que vou sentir vergonha ao ler o livro impresso. Vou encontrar erros bobos, lugares comuns, clichês, frases truncadas. O ideal seria gastar mais tempo sobre o texto, sem tantas interferências e confusões ao redor. Trabalhar frase por frase, palavra por palavra. Mas, assumi minhas limitações e, apesar da vergonha que eu possa vir a sentir, estou muito feliz.


A pandemia me fez repensar várias coisas e compreender o seguinte: o momento ideal é aqui, agora. Muitas vezes adiamos coisas que são importantes para nós – inclusive a felicidade - aguardando o tão sagrado momento ideal, as condições ideais. “Quando as crianças crescerem. Quando eu conseguir um trabalho melhor. Quando eu tiver mais dinheiro. Quando comprar minha casa. Quando o frio passar. Quando parar de chover. Quando o governo mudar. Quando eu tiver aquela ideia incrível. Quando eu me aposentar. Quando eu tiver mais tempo...”.


Quando é uma palavra que nunca chega. É a desculpa que inventamos para nós mesmos para adiar a nossa responsabilidade pela nossa vida e o que fazemos dela. Não existe momento ideal. Ideal vem de ideia. E o mundo das ideias é o mundo abstrato. Um mundo fascinante, onde projetamos todos os nossos sonhos, desejos e expectativas. Entretanto, o mundo onde realizamos esses sonhos, desejos e expectativas é este aqui, com todos os seus desafios e obstáculos.


Aguardar o momento ideal pode significar passar a vida sem colocar em prática aquilo que nos é fundamental. “Mas se eu não tenho as condições ideais, como eu faço?”. Trabalhe com o que tem. É muito melhor – e extremamente gratificante – adaptar a expectativa e realizar da forma que der em vez de ficar esperando o momento ideal que, tenha certeza, nunca chegará. Nem que você ganhe na loteria. Eu não escrevi a obra-prima sonhada, mas escrevi a obra-pronta possível e o possível é infinitamente melhor que o impossível.


(Crônica publicada no Correio Trespontano)

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