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  • sitemarolo

Uai, eu sou mineira sim, por quê?

- Maria Dolores?


- Isso mesmo, sou eu, Maria Dolores – respondi, entrando no carro depois de conferir a placa.


Não precisei falar mais nada e o motorista do aplicativo tratou de acrescentar:


- É de Minas, é?


Acontece sempre da mesma forma. Eu abro a boca, falo duas palavras e as pessoas perguntam, entre empolgadas, fascinadas e curiosas: “Você é mineira!?”. Em dezesseis anos morando em São Paulo, posso dizer com convicção: ser mineiro aqui é tipo ser um filhote de poodle. Sabe quando estamos num lugar e chega uma pessoa com um lindo e fofinho cachorrinho poodle e todo mundo diz “olha, que bonitinho”?! Ser mineiro na terra da garoa é exatamente a mesma coisa. A gente chega num lugar, abre a boca, solta umas palavras e as pessoas logo identificam “olha, é um mineiro, que bonitinho!”. Acho que, com esse sotaque arrastado, cantado e a fala tranquila não causamos medo. Ninguém que não seja de Minas Gerais tem medo de mineiro, pelo menos não num primeiro instante.


No imaginário popular somos aquele velho primo caipira do interior, ingênuo e singelo que não causa mal a ninguém. E, assim, os paulistanos nos consideram bem-vindos. Intrusos inofensivos e pitorescos. Conversar com um mineiro é quase como uma viagem pelo interior do mapa e do coração. “Você lembra a minha tia! Minha vó falava igualzinho! Eu gosto tanto desse sotaque! Adoro cachoeira! Um dia vou conhecer Ouro Preto! Ai que vontade de comer doce de leite e pão de queijo!”. Sim, nós mineiros suscitamos os mais nostálgicos e suaves sentimentos nos que vivem por aqui.


E não me importo de estar no mesmo nível do filhote de poodle. Na verdade, ser mineira-poodle por essas bandas paulistanas só me trouxe benefícios. Como o dia em que, sem nenhum centavo no bolso, consegui que um taxi me levasse fiado do antigo prédio da Editora Abril, na marginal Pinheiros, até a rodoviária do Tietê, do outro lado da cidade. Fiquei de voltar no ponto e pagar outro dia, e paguei, para a surpresa do taxista. Ou como o projeto que vendi graças ao meu sotaque mineiro e a uma receita de café de coador. Ou em todas as vezes em que as atendentes das lojas me deram descontos ou, no mínimo, um melhor atendimento, única e exclusivamente pelo meu modo mineiro de ser - e falar, claro. Ou, ainda, como quando uma grande produtora nos contratou para o maior evento do ano só porque o cliente dono da empresa era mineiro e queria falar com, adivinhem? Mineiros. Não se deu bem com o sotaque paulistano.


Ainda que os benefícios nem sempre sejam tão concretos, ser mineira em São Paulo só meu trouxe coisas boas e me fez sentir acolhida. Ser mineira e me manter mineira me fez perceber que não preciso deixar de ser quem sou para conquistar o que quer que seja. Não perdi o sotaque até aqui e espero não perder. Traz leveza para a vida. Para a minha e a dos que, por ventura, cruzam o meu caminho e me escutam dizer: “Uai, eu sou mineira sim, por quê?”.

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